quarta-feira, 4 de setembro de 2013

ao mestre com carinho

minha mãe é funcionária pública da educação, portanto, desde muito pequeno, sou acostumado com o ambiente escolar. comecei a frequentar a escola em que ela trabalhava com três anos e com quatro, eu já assistia algumas aulas de ginásio (na época, 5ª a 8ª série), ali no cantinho, na minha, só observando o que as professoras (geralmente de história e geografia) estavam ensinando, fazendo uns rabiscos e coisas do tipo. com cinco, já sabendo ler e escrever, frequentei a pré-escola. com seis, fui pra primeira série, estudando exatamente nesta escola onde minha mãe inclusive ainda trabalha.
quando eu estava naquela fase de decidir o que "ser quando crescer" uma das opções sugeridas pela minha mãe foi magistério, que no caso, nem existe mais. o argumento dela que, claro, não me convenceu, porém ficou fixo em minha mente durante todos estes anos foi de que ser professor é uma profissão que sempre vai existir e nunca vai faltar emprego, pois sempre haverá escola. você vê a força do sentido contido nesta frase quando percebe que a própria palavra profissão, que vem de profissional, tem a origem etimológica igual a de professor:

Do latim, PROFITERI, “declarar em público”, formada por PRO-, “à frente (dos outros)”, + FATERI, “reconhecer, confessar (sua escolha religiosa)”. Um derivado é, naturalmente, o substantivo “profissão”; outro é o verbo “professar”, qure tem o significado de “reconhecer publicamente, ser adepto de uma religião ou sistema”.

tá, não fiz magistério, nem pedagogia, pelo contrário, em uma das maiores burradas da minha vida, perdi todos os prazos de inscrições possíveis para bolsas de estudo e acabei ficando com última opção que havia escolhido, publicidade e propaganda. por mais que tenha adorado o curso e me identificado com a comunicação social não tinha o talento necessário para ser um redator, um diretor de arte, nem um profissional de planejamento, enfim, trabalhar em uma agência não era a minha. percebi isso no terceiro ano da faculdade, mas como já estava tão longe e titio Lula estava pagando minha faculdade, terminei o curso. com louvor, inclusive, tirando 10 na monografia.
no mesmo terceiro ano me ocorreu a ideia de ser professor. tive a sorte de poder ter professores muitos bons na faculdade (não todos, claro) e o modo como eles passavam seus conhecimentos e a desenvoltura para fazer isso para 40 jovens mais interessados em cerveja, sinuca, truco e pebolim do que em conceitos de marketing e teorias como a da agulha hipodérmica me encantaram.
claro que não seria fácil. não ia terminar a faculdade e sair dando aula, mesmo porque, ser puxa saco e dar monitoria, coisas que me ajudariam, nunca foram a minha praia. a ideia ficou em mim realmente como um plano a longo prazo.
até que, cheguei na pós-graduação. depois de milhares de dúvidas quanto a qual curso escolher, acabei partindo pro marketing. confesso que mais pelo desconto proporcionado pelo meu empregador do que por fé na profissão, mas enfim, é o primeiro passo pro tal mestrado, que me possibilitaria então, dar aulas.
na pós-graduação um novo mundo se abriu pra mim. com aulas específicas e professores que dominam ainda mais a já citada arte de despertar interesse em pessoas naturalmente desinteressadas minha vontade se aflorou e cada vez mais tenho dúvidas sobre qual tema escrever na minha conclusão de curso, preparando terreno para um mestrado nesta mesma área.
e o mais incrível e o motivo deste texto estar sendo escrito aconteceu neste semestre.
na primeira aula que tivemos após o recesso de meio de ano, estava eu conversando com uma menina que senta a minha frente, quando ela fala "o professor de agora podia ser louco né", quando não mais que de repente, olhamos para porta e está entrando um senhor todo grisalho, cheio de aparatos e meio atrapalhado. na hora nos entreolhamos e tivemos a certeza de que o desejo dela havia sido atendido.
pô, o cara colocava janis joplin pra tocar antes da aula começar!
com o decorrer das aulas, ele foi nos contando suas experiências e não sei se foi só comigo, mas todas elas me acrescentavam algo, como por exemplo, seu lado socialista meio desiludido, do qual me identifiquei bastante e em um certo dia ele disse que havia se tornado professor para ajudar seus alunos a não cometer os mesmos erros que havia cometido, ou algo do tipo.
ouvir aquilo em um momento cheio de dúvidas da minha parte, sobre amor, sobre amizade, sobre política, sobre carreira, entrou nos meus ouvidos como música. fez um sentido danado pra mim, que mesmo não tendo a idade dele, já tenho bastante erros cometidos, inclusive o principal deles, citado neste texto, aí um pouco mais pra cima.
não sendo o bastante, hoje enviei um e-mail para ele com uma dúvida e qual não foi a minha surpresa quando recebo um telefonema do próprio. como estava pelo celular e não tinha certeza se havia conseguido responder meu e-mail, preferiu ligar. detalhe: nem eu lembrava que minha assinatura de e-mail tinha meu telefone.
claro que aquilo pra mim foi o ápice da relação aluno-professor, até chegar a hora da aula.
passada a atividade proposta, que por sinal foi executada por todos com um empenho que até então eu não tinha percebido em sala de aula, ele decide fazer uma homenagem a classe. escolhemos os alunos que mais se destacaram na matéria e foi feito um sorteio do qual o escolhido ganhou um presente dele. um presente simples, mas com um enorme valor simbólico. ele então passou um vídeo cujo o nome era: "salvem as mulheres". outra porrada na minha cara. um vídeo exaltando as mulheres e "ensinando" como tratá-las, enfim, era um daqueles ppt's super bregas que a gente recebe por corrente, mas com um significado enorme, ainda mais pra mim, que costumo ter relações das quais geralmente a intensidade é muito grande e isso acaba fazendo eu cometer umas besteiras, deixar escapar momentos e pessoas incríveis e outras coisas (isso fica evidenciado pra quem ler alguns poucos textos deste blog).
depois da apresentação então, foi a vez dele se despedir, com lágrimas nos olhos e gerando aplausos sinceros de todos os presentes, causando uma comoção que eu nunca havia visto em uma sala de aula, TODOS os presentes fizeram questão de cumprimentá-lo e agradecer as aulas e principalmente as experiências passadas.
depois dos cumprimentos, ficaram ainda eu e mais uns cinco alunos para agradecer mais uma vez pelas aulas, quando ele, num arrobo de sinceridade e ainda chorando, nos evidenciou um fato de sua vida totalmente particular, emocionando muito mais aqueles que ali restavam.
resultado, saí da aula emocionado, com os olhos totalmente marejados e com uma cabeça totalmente diferente da qual tinha quando vi aquele senhor entrar todo atrapalhado na sala no primeiro dia de aula.
olha, devo dizer que foi algo que jamais esquecerei. se algum dia acontecer algo similar em minha vida, principalmente comigo no papel de professor, poderei dizer que cheguei a plenitude profissional e alcancei o meu objetivo.
obrigado mestre João Francisco de Toledo, pode ter certeza que eu quero ser exatamente como o senhor quando eu crescer.

ps: certamente quero que o senhor tenha ciência da existência deste texto, mas só enviarei para o senhor em um futuro próximo, quando a nota da matéria já estiver definida, afinal o único objetivo deste texto é agradecer.


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